Ana Luiza S. Conceição - (Coisas de Ana) - Gaúcha, vive em Porto Alegre desde os primeiros passos. É Terapeuta Holística em Sincronicidade. Seu amor pela poesia desenvolveu-se desde tenra idade, influenciado pelos poemas de seu pai e a grande sensibilidade artística de sua mãe que se valia de inventar estórias durante as longas noites do período da ditadura.

Do medo velado tatuou-se uma grande sede de liberdade que foi canalizada na expressão de escrever e dizer coisas. Digamos que a poesia, para Ana Luiza, foi a carta de alforria de um longo período de silêncio, de si e dos seus. Fascinada pelo humano, guarda como tesouro sua formação.

Mestre ReiKi, tem dedicado sua vida, além de seus filhos, a tocar terapeuticamente às pessoas. Em sua formação holística, alicerçou seus conhecimentos em Análise Transacional, Psicodança, Aconselhamento Social e Relações Humanas. Ministra workshops, seminários, bem como atua na área de Consultoria. Realiza um trabalho com crianças Indigo, pioneiro no Brasil.

A poesia é uma ferramenta em seus cursos como uma forma de trabalhar as emoções. Nasce daí, pensa ela, um entendimento de si e uma grande ponte para se chegar ao outro na consciência do “nós”.

Sobre esse espaço ela diz: "Sinto-me feliz em participar dessa egrégora poética, fruto de um trabalho incomensurável e de gentileza tamanha, capaz de enobrecer dons. À Antônio Poeta e equipe da Revista minha gratidão."

LEITURA

Minha vida não é um livro aberto.
Está na prateleira de minh'alma
e quem estender os braços para lê-lo
saberá quem sou...

Escrevo-me a cada dia
e não arranco páginas,
porque todos os registros
me fazem ser a página
onde estou.

Não sou um livro aberto,
e nem todas os poemas estão confessos.
Guardo-os na contra capa
e, se pudesse escolher a sua cor,
ele seria azul...

Um livro azul que me contém.

Ana Luiza (coisas de Ana )



MUNDO CÃO


Que mundo é esse ?

Que mundo desconexo
que faz corar o justo
e eleger o patético!
Submundo que se agiganta
e ainda canta na calçada nua
num céu sempre escuro
sob a lua viúva onde o mercúrio
contamina a seiva da meia vida
do meio homem que alimenta
o grande senhor capital
que fala na paz sobre os
corpos que não são celestes
são sobreviventes, filhos da peste
orfãos do humano, genes do escuro
alimentos do futuro...
Que mundo cão!
Que ri e gargalha na nossa cara
e não nos redime, não nos exclue
somos produto, co-responsáveis
dessa saga e safra tão miserável.
Cruzamos os braços, apontamos
o dedo, filhos do medo que matam
outros filhos...
Seremos mordidos,seremos feridos,
nós os bandidos,
pois cão que é cão,nem parecido.
Que mundo então !

Ana Luiza (coisas de Ana)



COLMÉIA

Silêncio,
as abelhas estão cochichando
algo doce,âmbar,musical
indiferentes as nuvens
pesticidas, insistem
na colméia.
Unto minhas incertezas
de farto mel e de olhos
arregalados ao milagre
da vida, rendo-me...

Capturo esse zunzum
dentro do peito
e amanheço favo!

Sou promessa de doçura!

Ana Luiza (coisas de Ana)



O CHÃO NOSSO

O chão nosso de cada dia, que tormento
é regado de suor e lágrimas muitas vezes
como nos montes de lixo onde o sustento
agrega seres, sub-humanos , em afazeres.

O chão nosso de cada dia das ruas moradias
da fome, droga, homícidio negro da infância
colorem faces, baixam os olhos em covardia
é pão alimentando com os restos da ganância.

O chão nosso de cada dia se estampa no jornal,
vende a miséria, o holocausto como no cinema
e alimentamos esse chão nosso, pecado capital.

Senhor Deus, basta, ainda se planta a esperança
de ver brotar o bem como tua imagem e semelhança
para que o chão deixe de ser MEU e seja NOSSO...

Ana Luiza (coisas de Ana)



SONHO

O sol se foi
e ao fechar a blusa
despeço também tuas mãos.

Ao novo dia
o astro retornará
e não te encontrando em mim
se esquivará ...

Sentirei frio.
e de teu aceno
aquecerei meu dia.

Os botões
feito contas de um rosário
tatuam no meu peito
teu toque.

Voltarás,
e só te deixarei partir
após a lua.

A rua que nos espere,
o sol que nos inveje
a blusa que fique nua.

E que eu não acorde
para poder lembrar.....

Ana Luiza (coisas de Ana)



Das Esperas

A espera por quem se ama,
é santa,
é feito paisagem,
mas vai além...
muito além,
até onde a nossa alma
alcança...

Ana Luiza (coisas de Ana)



FLASH

Eu olhava para o teu vazio
e, por momentos, num flash
saltei para o mistério.
Nunca soube se apareci
no teu olhar, mas vi!

Ana Luiza (coisas de Ana)



AMANHÃ

É a desculpa do tempo pelo finito
ontem que escorre de nossas mãos
e fragmenta a realidade em lembranças.

É a esperança que nunca cresce
vestindo-se para o novo dia
mesmo que adormeça chorando.

É o ingresso que se compra hoje,

Para viver, se a vida acordar!

Ana Luiza (coisas de Ana)



TRANSGRESSÃO

Veste-me com tua nudez completamente
Porque meu corpo sente frio, abandonado
Quer teus braços a envolver novamente,
Minh'alma de mulher em transe alucinado.

Invade o leito, transgride o permitido
E ocupa os meus desejos mais secretos,
No êxtase da posse total de meus sentidos
Os meus murmúrios subjugam teus decretos.

O avesso de nosso avesso se confunde
E o ar quase nos falta em ousadia
De nossas bocas, imantadas na agonia.

Dessa simbiose louca e desmedida da paixão,
De amor doído, a sobreviver sem lei em tirania,
Sem direito algum explicado na razão...

Ana Luiza (coisas de Ana)



AMOR PERFEITO

Um bem querer
sem mal-me-quer
sem desfolhar,
só bem gostar.
Um bem querer
da flor plantada,
entregue aos ciclos
sem ser arrancada.
Um bem querer
assim, quero,
sem ferir a flor
e que seja amor,
amor perfeito!

Ana Luiza (coisas de Ana)



AVE DE PAPEL

Olha lá, no azul do céu,
não tem asas, mas voa
colorindo as nuvens
fazendo curvas pelo ar,
brincando com o vento
que quer lhe pegar.

É pássaro de papel de cera
com rabo de panos multicor.
É pipa, pandorga, papagaio
seja que nome for...

Voa leve, voa alto,
o coração dá um salto
nas manobras que ela faz.

E o menino na terra
com o barbante entre os dedos
liberta o lindo brinquedo
também querendo voar!

Ana Luiza (coisas de Ana)



TATO

Tocou-me a rosa
vermelha, desmaiando sua cor
no meu peito ritmando a vida.

Tocou-me o breve gesto
como a pedir perdão tardiamente
por todas as flores mortas.

Tocou-me o tempo.
e, sem tocá-lo, o libertei
no milagre das mãos vazias.

Tocou-me a verdade
porque as mentiras eram intocáveis,
eram apenas...você e eu!

Ana Luiza (coisas de Ana)



REESCREVENDO

Versos quebrados,
escoam o mal dizer num intervalo,
debruçam-se descasos, doem, sangram.

Nenhuma flor, nenhum aceno
nem um suspiro para protegê-los
da tonta catarse sobre as linhas.

Antes estivessem presos em rimas
e não suspensos em corda bamba
lançando-se desnorteados
na liberdade dos sentidos.

Versos quebrados
de um poema antigo,
agonizando...
Onde estaria eu, onde andaria?

Extrema unção, sem meu perdão,
assinaria.
Versos quebrados
sobrevividos
feito ironia...

Ana Luiza (coisas de Ana)



LUANDO

Almas cheias,
a poesia a escrever amantes
na urgência dos versos
que se beijam, atônitos
no encontro das linhas.

Abraçadas todas as metáforas,
percorridas as reticências,
respirados os parênteses
como se só a eles coubesse
o desvirginar do primeiro poema.

E depois,
a lua se faz cheia,
as almas dormem lá na areia
minguando a sombra
da luz que os acordou!

Ana Luiza (coisas de Ana)



VERSOS, INVERSOS, UNIVERSOS

Onde começo sou agonia
a fluir para pacificar
o curso do que sinto,
torno-me versos.

Do avesso e do direito
retrato-me nos inversos,
sou contornos, nuances
entrelinhas,
estampo-me!

Imersa procuro-me
desdobrada em universos
nos espelhos facetados
da poesia,
contenho e expando-me.

Quem seria eu sem versos?
Quem me assinaria?

Ana Luiza (coisas de Ana)



ÊXTASE

Fazia falta essa sensual saudade de corpos
que arrepiam as peles, provocam o êxtase
em quem vai deixando-se amar na cena...
Essa coisa de lençois ardentes na leveza
das açucenas...
Dizer-se assim, do amor, esparramado sobre
o céu da cama...e nela a dama das estrelas.
Fazia...
Trazer o amante e a sua mão, a emoção,
esse suspiro,
sonhar aberto nos corpos despidos
no climax consentido do pecado original.
De espiar na fechadura as próximas cenas
e povoar a minha cama.
Fazia...
Delirar o instante, o fecundo ato da entrega,
que depois, bem depois
dormiu poesia!

Ana LUiza (coisas de Ana)



VISÃO

A visão desde criança confunde minha mente,
anseio, às vezes, negar os focos exibidos.
É compulsão indomável que me faz ver diferente,
como se muitas vidas respirassem meus sentidos.

No farelo do pão sobre a mesa eu vejo o trigo,
deixo-me ir pelo trigal a compor versos dourados.
Nos traços do ancião leio histórias, as levo comigo
onde as rugas contam dos sonhos habitados.

Assim vou vendo, bem mais do que queria ver.
Confesso que minha visão fala o tempo inteiro,
entontecendo-me na equação do falso e verdadeiro.

E quando os olhos fecho, outros olhos me despertam
a dizer e sonhar coisas, dos estímulos que não cessam
indiferentes a agonia, fazendo-me ainda ver...

Ana Luiza (coisas de Ana)



REVELAÇÃO

Senhora, escondas o teu rosto sob o véu
quero o mistério melancólico do incógnito
a capturar o frio olhar dos olhos do céu
sobre tua meia face pálida,no breu absoluto.

Sugeres a viuvez de linda dama recolhida
que se curva ao pranto, gélida na ausência
de sua outra metade, projetando distorcida
os contornos da dor , ausente da clemência.

Adivinho-te também o semblante de fetiche
senhora das poções alquimizando sentimentos
sem revelar as conjunções no firmamento.

Nos fitamos intrigadas, cúmplices na ansiedade
Tu és lua nua escondendo tua fase de retiro
Eu mulher despida, procurando a identidade.

Ana Luiza (coisas de Ana)



MARCAS

Ficastes como a marca do vulcão
Que ao consumir o ar tatua a terra
Como as manobras ávidas do falcão
Que sobrevoa o que sobrou da guerra.

Ficastes como os vinhedos no inverno
Nús, resistindo as geadas e ventanias
Como folhas esmaecidas de um caderno
Abraçando versos que compõem poesias.

E como eco que ao rasgar o vácuo
Preenche o vazio do espaço retornando
Feito um sinal que alerta e vai calando

Essa certeza que também em mim ficastes,
Como se o amor em nós já não bastasse,
Nos arco-íris, campinas e estrela matutina.

Ana Luiza (coisas de Ana)



XADREZ

Deslizo por sobre o espaço branco
e te encontro no espaço negro.
Fitamo-nos.
O confronto adia a lentidão das horas
que nos consome.
Nossas mãos disfarçam a urgência
de poder respirar,

movem-se cautelosas e frias.

Circunda-me o espaço vazio,

nada mais há de nós,

apenas quadrados.
Luz e escuridão, contrários,
obrigando-nos a obedecer

as regras.
Foram-se todos.
Frente a frente, sem defesas,
está o rei e a dama.
Empate, que me abate.
O tabuleiro perdeu,
segues sem mim,
xeque mate.
Adeus!

Ana Luiza (coisas de Ana)



PNEUMONIA

Respirar, dói.
Quase aquela mesma dor
de quando se perde um amor!
O corpo quer colo,
quer ninho,
ficar quietinho.
Sensação de frio,
arrepios,
alta temperatura!
Pneumonia,
o preço a pagar
por dormir semi-nua,
ir espiar a lua,
beber do sereno
e adormecer perto do fogo,
confidenciando com a lareira.
Pneumonia,
mas não sem poesia!

Ana LUiza (coisas de Ana)



MANIA

Minha mão inquieta
no escuro sobre a tua,
respiração entrecortada,
procuro.
Não posso perder a cena,
mastigo a ansiedade,
compulsivamente toco
sem te olhar.
Nossas mãos se encontram,
vazias.
Acabou,
prematuramente.
Obrigamo-nos a nos fitar
na melhor parte.
Telepáticamente concordamos:
No próximo filme vamos comprar
pipocas!
Balas de goma não resistem
a essa mania tão nossa,
de ir mastigando o filme
até o final!

Ana Luiza (coisas de Ana)



E DAÍ?


E daí ?
Se ela ao invés de olhar novela, cria
as mais doidas e belas fantasias.
Se o olho chora e comove o cisco
que se entrega na correnteza dessa aguada.
E daí?
Tem lua no céu, risco no papel, torre de babel
nos sentimentos que fazem barulho, se agitam
e depois se entregam passivos, no colo,
querendo cafunés.
E daí, se o tempo vem contar casos, sussurrar
descasos, se a pia pinga com barulho de chuva,
e o mosquito traz o cheiro da mata...
Se batem na porta e ela constrói portais,
estradas, clareiras, esconde seus ais...
E daí ?
Se a meia luz delira o amor e o cheiro do corpo
contorna amantes, registra beijos, reune "antes"
com o sabor do "depois".
E daí se ela, na janela, divisa sorrisos, ousa paraisos,
sobe e desce no salto...no salto do coração que,

às vezes, despenca, voa, levita e se atira ao solo
vivo num tuc,tuc arritmado.
E daí ?

Folha em branco, livro aberto, estímulos,
universos, versos, palavras, versos...
Respira em si o devaneio.
Nem se importa se é liberdade ou é prisão.
Se é vício, compulsão, se transgrediu a métrica.
Só sabe que sentiu. Desde sempre.
E daí?
Quem se importa ?
É ZIA, é POETA!

Ana Luiza (coisas de Ana )



VERÃO... VERÃO!

Digamos
que esse é meu inverno,
pareço nua,
morta,
ocupando o espaço.

Mas veja,

sou filha da terra
e ela me benzará
fertilizando o árido
silêncio.

Brotarei ,

e ao erguer-me ao alto
tudo o mais
será apenas
uma estação.

Vou pular a primavera
e serei...verão!

Ana Luiza (coisas de Ana)



REVELAÇÂO

Escrevo sobre o negativo
da poesia
e ouso sonhar revelá-la,
porque o mágico e torturante
momento, se fez.

Capturou-me congelando
o sentimento que ficou ali,
em preto e branco...

O outro lado me espera,
e nunca eu espero dele.
No entanto, ele se revela,
esboça-me e me expõe.

Escrevo o lado de dentro
das coisas, de todas as coisas
que não posso calar...

E de meu obscuro prisma
saltam versos revelados
do inquietante espaço
onde me misturo ao poema,
e já nem sei quem sou!

Ana Luiza(coisas de Ana)



PRECISO

Há no meu peito
um grito contido
algemado, cativo...

E nos meus lábios
um sorriso inventado
contorno polido.

No meu corpo
afagos sedados
comportados, inexpressivos

Há outra de mim
transitando no espaço
de olhares gelados.

Mas quando a noite chegar
e eu despir as verdades
talvez a sombra de algum abraço
durma comigo.

O sonho terá de ouvir
meu grito preciso
para que eu possa acordar em paz
calçando sómente meus passos
e por aí, brincar de viver!

Ana Luiza (coisas de Ana)



VERDADE

Diz o poeta que o que sobrevive é a verdade
depois da avalanche de extremos sentimentos,
porém, equivocado perca-se na complexidade
que a verdade mente depois destes momentos.

Talvez, doída, perca sua claridade e se ressinta
afetada de memória, frágil , perca a identidade
desvista a arrogância de se saber absoluta,
divague apenas, feito labirinto na temporalidade.

O que sobrevive são fragmentos, ela se desfaz.
Não pode ser a mesma, vai reinventar premissas
para amparar-se, recomeçar a insensatez.

Vai saber-se aprendiz, mutável , flexível,
entender a sua existência relativa e temporal
e viverá sua verdade , afinal...

Ana Luiza (coisas de Ana)



VERSOS NUVENS
(Para Oswaldo Begiato)

Um poema escrito
com nuvens do céu,
pairando na iris azul do poeta
só para ver o sol de seu peito
por-se em entardeceres,
acenando para o sem fim...

Versos translúcidos,
movimentando-se no ir e vir
do sentimento que compõe
a sutil alegria de tocá-lo.

Um poema escrito,
quisera eu, para elevá-lo
até onde sua alma alcança
e acredita que poemas podem
florescer, feito nuvens,
em qualquer céu!

Ana Luiza (coisas de Ana)



UNÇÃO

Afoita por entre o poema
percorri versos
saciando a implacável sede:
palavras ungindo sentidos.

Deixei-me ficar
ao adivinhar as linhas das mãos
e o movimento de seu peito
na leitura das embaçadas retinas.

De sua fonte, naufraguei,
relendo o labirinto:
marcas digitais próprias.

Depois, imantada,
adormeceria suas impressões
habitaria sua identidade,
Ousaria crer que se fez poesia.

Ana Luiza (coisas de Ana)



COM SENTIMENTO

Cessam os gritos da vida festejados
No novo ciclo que rompe a madrugada,
Pé-ante- pé adentro no peito silenciado,
Saudade imensa de acreditar que sou amada.

Minha prece, depois de agradecer,serena e muda
Liberta ao céu, roga um pedido ao firmamento,
Não quero nada novo, só eu, mesmo absurda
Que se escondeu em algum lugar do pensamento.

Quero a leveza dos meus dias alegres ou tristes,
Sorrir a toa loucamente pela vida, sem censuras
Irradiar a minha luz, apaziguar minhas torturas.

Quero janelas e varandas nos meus versos,
Quero um amor translúcido, simples e confesso,
Que me abrace forte ao romper da aurora...

Ana Luiza (coisas de Ana)



GATA NO TELHADO

Vou buscar uma lua,
desenhar uma janela,
debruçar-me sobre a rua
suspirar como donzela...

Vou constranger a gata do telhado,
vagar o ollhar numa constelação
perdida,
vou ficar assim, feliz de mim,
cheia de vida!

Ana Luiza (coisas de Ana)



ROTINA

Nos olhos aquela imensidão do pescador
que atirou a rede, preguiçoso e na espera
cruza os braços, se rendendo, sonhador
que o mar trabalhe prá pagar sua tapera.

O seu olhar arrastado guarda o continente,
guardião das marés, das tormentas e das luas
tantas histórias do "além-mar"em sua mente
prá povoar os fins de tardes nas esperas.

Do céu a noite o observa, cabisbaixa e fria
sabe que o sol lhe porá em movimento,
e mais magia se fará nesse momento.

Ansioso, apaixonado e desmedido
vai recolher a rede tecida de sentido
e melhor que isso, só o beijo de Maria!

Ana Luiza (coisas de Ana)



ENTRE POETAS

Procuro os poetas, transito na poesia
deixo-me ficar alimentando minha alma
revigoro nas expressões feito alquimia,
benditos seres me trazem paz e calma.

Debruço-me no que sinto e alguém diz,
à adivinhar o que sou, assim no verso,
sentimentos que afloram fazendo-me aprendiz
expondo a essência que compõe o universo.

Tantos céus, luas, sóis e imensidões,
amores eternizados, guerra, paz e solidão
tão peculiar de cada um em múltiplas visões.

Tantas leis implícitas feito poemas,
movimentos tênues capturados da existência,
procuro poetas, os saltimbancos da consciência.

Ana Luiza (coisas de Ana)



SURTO

Hoje acordei para
cometer loucuras,
sair assim, semi-nua
sem atender os sinais
ignorar os pardais
a repetir em alto som
nossa música...
Inverteu-se a lógica.
Deixei a razão dormindo
e acordei o sonho...
Só por isso estou assim,
loucamente desenfreada
na total insensatez
de ganhar a rua
arranhar a tua porta
e gritar:sou tua!

Ana Luiza (coisas de Ana)



CONCORDÂNCIA

Quando éramos o que seríamos
eu não era triste,
havia qualquer coisa de luz,
de imãs de um coração a outro
que era caminho...
Deixamos de ser, sendo,
e eu nunca soube o que seria
ser mais feliz,
como se isso fosse possível!
Quando éramos, vivemos
todos os tempos,
tão intensamente que parecia
ser tudo.
Tudo, sabemos,jamais seríamos
por isso a pressa de pertencer
sem deixar marcas no real.
Quando seríamos, fomos amor.
Não menos, simplesmente amor!

Ana Luiza (coisas de Ana)



SUBTRAÇÃO

Hoje cortei-me ao meio
e nenhuma das partes absolveu
a agonia.

Amanhã cortarei dos meios
outros meios
até que me despedace,
torne-me fragmentos,
e alguma parte viva em mim
restaure minha unidade.

Possa, finalmente,
não estar divisível,
nem sentir-me par.

Nem mais você e eu
nem mais você
nem mesmo eu.

Menos, novamente.
Inteira,
antes de nós dois!

Ana Luiza (coisas de Ana)



TATO

Imperceptíveis marcas
que se alastram, ferindo,
num descaso mórbido
do tato que nos invade,
tão sem a intenção de nos tocar,
mas que toca...
Intenso desejo de anestesia
na pele dos sentidos.
Sangrar, até que coagule o último
slide na memória do lembrar.
Que não me toque o passado,
fere-me, ainda dói.
Deixe-me quieta cicatrizar o
nosso nunca mais...

Ana Luiza (coisas de Ana)



SOPRO

É tarde em nós,
anoitecemos ao fechar a porta
e nem olhamos para trás
quando nos distanciamos
daquele jardim com promessa
de primavera.
É tarde.
Congelamos nosso inverno
saindo de nós,
e agora sós,
amanhecemos...

Ana Luiza (coisas de Ana)




NO MAR

Quem sabe, feito lua cheia eu sonhe
limitar o horizonte
e contenha os segredos das distâncias.

E, ao meu inverso, a calmaria do oceano
embale o porto de meu peito
prá eu navegar a paz de minha alma...

Fetiche sobre as ondas dos pensamentos,

A me levar para o sol de um grande amor!

Ana Luiza (coisas de Ana)



BUSCA

Segui teus passos
da cama ao corredor
e te trouxe de volta
sem nada falar,
nada pedir,
explícitamente,
para te amar...

Um imperativo impulso
de me sentir em nós,
sós,
mais uma vez,
como se o corredor
fosse apagar ali
a cumplicidade
de nossos poros
e a mistura dos cheiros
amadeirados.

Como um imã eu te atrai,
colei-me a teu corpo
como que sedada
num absurdo medo
de nunca mais.

Só então dei-me conta
do quanto eu te queria!
Só então eu te pedi
prá ficar...

E te amei como se fosse
a primeira vez!

Ana Luiza (coisas de Ana)



INTIMIDADE

Abri as portas do olhar
e te permiti adentrar
os corredores de meus mistérios,
sem pressa, até aproximar-te
bem próximo do portal
onde habito a minha solidão.
Surpreendi tua busca.
Iluminei os sentidos e me despi
até conheceres o caminho
de minha alma.
Ficamos tão próximos, tão íntimos,
tão inexplicavelmente completos,
dois em dois.
Quando pisquei, já estavas em mim
e é certo, conheces hoje os meus olhos
e eu sempre te recebo na porta da
visão total.

Ana Luiza (coisas de Ana)



A... DE AMANDO

Nú,
a espera das vestes.
Cubra-lhe o frio,
que faz enroscar os corpos
prá aquecer desejos
e dormí-lo abraçado.
Queime-lhe o calor
prá incinerar posturas,
em labaredas de culpas
e entregas.
Cubra-lhe as flores,
para ungi-lo de chegadas
e estações.
Faça-se o tempo,
entre o dia e a noite
da nudez,
se assim,
abraçar as formas.
Eís o amor.
Único e intransferível,
sem garantias
amando,
do amor amado.

Ana Luiza (coisas de Ana)



GAUDÉRIO

Incomoda esse rosto
de índio gaudério,
essa cor de terra, esse jeito
irriquieto de sentir e calar.
Essa forma mansa de se apossar
de meu sonho, cavalgar no meu tempo
qual vento desnorteado
de fim de estação...
Incomoda tornar-me faceira,
ser índia, ser fêmea
deixar-me pertencer sem poder ficar.
Incomoda essa fronteira
de vidas, que não se busca- acontece,
que não existe - existiu !
Incomoda esse mistério
que é sopro e é brisa,
tão forte e tênue que se faz poesia,
tão faz de conta - que é melhor calar!

Ana Luiza (coisas de Ana)



COM (PULSÃO)

Sacia o teu crú desejo
na jaula
da fera faminta
vermelha de sangue
canibal explícita
da caverna de teus olhos
vampirizando teu corpo,
tua mente, teu sexo.

Depois
liberta-te embriagado
e busca respirar tua alma,
insubmissa.

E ao abrir esse grito,
não de animal saciado,
mas de homem ferido,
convenças, não a mim,
mas ao teu vazio
que não és fera!

Ana Luiza (coisas de Ana)



COMPULSÃO

Já sangrei as horas, ninei sonhos
busquei em outros abraços
o teu anonimato.

Inútil.

Habitas como um fantasma,
espionando os meus vazios,
doendo meus falhos exorcismos.

Qual será o tempo
em que me espera a mansidão
do esquecimento?

Mas nego-te e absolvo
esse labirinto do sentir
e te consinto nessa alucinação
que me devora...

Estou partindo para a hipnose.

Há de ser, num espaço em branco,
num lapso sem pranto,
que vou arrancar-te do meu peito.

Há de ser num mergulho sedativo
sem compulsão de teu amor
que vou deixar de me ferir!

Ana Luiza(coisas de Ana)



EPÍLOGO.

Do afago nem a sombra,
como a que ficou no corpo só,
disfarce da solidão.
Só o riso demorou-se na pálida lua,
sem a pressa do lamento,
como que sedado num eco de loucura.
Encarceraram-se as palavras, os apelos,
exorcizou-se o apego na água santa
dos olhos.
Por isso o riso orquestrou o momento,
fez-se sinfonia do inacreditável
adeus...e depois emudeceu.

A face virou do avesso.
Ninguém presenciou o último ato,
já era tarde.
Todos dormiam, inclusive eu e também a vida,
como se adivinhássemos que terminaria
assim, sem graça nenhuma uma história de amor.

(coisas de Ana)



LAMPEJO

Para o primeiro poeta que conheci,
meu Pai...

Nas altas horas em que o relógio tece
Contas do tempo na escuridão da noite,
Como se o breu do céu ouvisse a prece
De um peito já cansado, agonizante.

A veneziana desbotada se surpreende,
Com o raio de luar e a brisa fresca
Que abraçados adentram e acendem
A luz no rosto do homem, finalmente.

Triunfa o sorriso por sobre a dor que cessa,
A vida já não chora, é apenas mais um verso
Que o poeta tece para a morte, assim confesso.

E eu poderia jurar nesse momento,
Que a poesia o levou, além do vento
Recitando o seu poema de existir...

( coisas de Ana)